Fui Eu…


Há muito que agora não me chamo mais eu.
Forma disforme, ao Sol voltado encasulado,
Não hei de achar sombra nem orvalho,
Que me caiba de bom grado…

Refugio-me então em meu vulgo silêncio,
E afundo orgulhoso em meu velho esquife,
Recolhido, qual menino manhoso,
Enquanto afogo-me no meu drinque,
Contrapondo-me presunçoso,
Refutando o que bem já tive…

Certa vez achei, por pura inocência,
Que as pessoas perdiam o brilho,
Com a idade que as carregavam,
Ao sentido do fardo da vida.

Como um invisível açoite,
Com o mesmo peso grave,
Que transforma o dia em noite,
Dilacerando a carne em feridas…

Mas a alegria é privilégio da alma!
Como a ida é consequência da vinda!
E talvez por ser divina,
Essa não depende de idade,
Pra ficar fosca e sem vida…

E a loucura as vezes,
É o botão de alarme,
Que aciona-se dentro de si.

Tanto da alma que transpassa,
Algum limite de pensamento,
Que não cabe mais aqui,
Quanto de um desespero,
Que se esconde cansado,
Sem ninguém pra acudir.

E sem certa insanidade,
Muitos não poderiam,
Olhar pra esse mundo doente,
E ainda assim sorrir…

Mas enfim,
O que faz uma forma disforme,
Num tabuleiro de furos circulares,
É o que quero descobrir…

Uma resposta para “Fui Eu…”

  1. Cara,
    Espetacular o que escreveu…
    Tive que ler, e reler e ainda ler novamente.
    Muito bom voltar aqui.
    Grande abraço

    Neo
    Todos os Sentidos

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